How I met Dr. J.

02 junho 2013
É muito fácil de assumir que nos dói o estômago ou as costas. Facilmente comentamos que fomos fazer análises ou um raio-x ou até mesmo um papanicolau. Mas ninguém assume que lhe dói a alma, que já não consegue mais, que chegou ao limite. Por vergonha. Por preconceito. Porque assumir que o tico e o teco estão doentes é esperar ver na cara do outro um "tadinha, já foste!". Muitas das vezes são os de fora de nos levam a assumir e a procurar ajuda. Porque não é fácil reconhecer e mostrar aos outros que quebrámos, que não aguentamos mais, que afinal não somos de ferro.
 
É um assunto íntimo. Muito íntimo. Então porquê escarrapachá-lo na net? Para que quem está a passar pelo mesmo que eu passei há uns tempos atrás, saiba que não faz mal. Não faz mal assumir que não estamos bem. Não há problema nenhum em dizer "Dr. dói-me a alma, preciso de ajuda". Afinal quantas vezes dissemos "Dr. dói-me a unha do dedo grande do pé, preciso de ajuda". Qual é então a diferença entre a unhaca do dedo do pé e a nossa alma? Nenhuma. Ambas fazem parte de nós. Ambas são resistentes até certo ponto. Ambas têm limites. Bem, talvez a unhaca seja mais resistente. Com os pontapés que eu dou quase todos os dias no móveis (desastrada que só visto!...) a unhaca continua inteira. Continuando a falar de assuntos sérios...

Eu assumi. Não foi fácil. Não foi mesmo nada fácil. Fi-lo sozinha. Talvez tivesse sido mais fácil ter tido o apoio de alguém, mas eu sou mesmo assim, não sinto necessidade de partilhar os maus momentos. São meus e ponto final.
Levei semanas até conseguir colocar realmente os pés numa consulta. Falei com n psicólogos (sempre por email, que ir lá pessoalmente... tá quieto!), marquei várias consultas das quais desisti sempre à última da hora. Consultas perto de casa, longe de casa, em consultórios, online...mas nunca consegui ir a nenhuma. Medo. Tinha muito medo. Medo de me expôr perante um estranho, medo de "fazer figuras tristes", medo do psicólogo gozar comigo, medo de simplesmente não conseguir abrir a boca para falar. Medos que se revelaram completamente infundados.
No meio deste marca consulta, desmarca consulta, vou, não vou, mandei um email para o consultório do Dr. J. Ao contrário de todos os outros ele não me respondeu de volta. Nem mandou a recepcionista falar comigo. (Bem, também é verdade que ele não tem recepcionista....) Agarrou ele mesmo no telefone e falou comigo directamente. "O quê? Sim, sou eu...Marcar consulta?? O quê?? Consigo???Não sei...Pois... Talvez...Pode ser...Então vemo-nos na consulta. Pois...Então adeus". E pronto, consulta marcada. Paniquei como nas outras vezes? Nop! Enquanto olhava feita anormalóide para o ecrã do telemóvel, à espera sabe-se lá do quê, o sentimento de calma e serenidade que a voz do Dr. J. me tinha transmitido só me fez pensar "Epá! Até gostei do homem!"

E, voilá! Lá fui eu ter com o Dr. J., que me ouve pacientemente, que me diz aquilo que não quero ouvir, que me faz pensar na morte da bezerra, que gosta de ouvir os meus filmes e os meus macaquinhos no sótão (caraças do homem que nem os pormenores sórdidos escapam....), que tem mil e uma teorias sobre o meu tico e teco e que diz que eu ainda consigo ter mais teorias que ele...

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